InícioGeralCaneta e Colher na Medicina: Dos primórdios à “facilidade”

Caneta e Colher na Medicina: Dos primórdios à “facilidade”

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Entre tradição e inovação, a medicina discute os impactos do emagrecimento acelerado

Há cerca de 6,3 milhões de anos, a partir de um ancestral comum, ocorreu a separação entre humanos e chimpanzés. Após sucessivas transformações evolutivas, há aproximadamente 180 mil anos, o Homo sapiens passou a ocupar diferentes regiões do planeta. Ao longo desse percurso, o domínio do fogo, a criação de artefatos para caça, o desenvolvimento da comunicação e a alimentação desempenharam papéis fundamentais na sobrevivência e na consolidação da espécie. Não por acaso, diversos estudiosos associam a capacidade de cozinhar e compartilhar refeições à própria construção da humanidade. “Somos macacos que cozinham. Como cozinhamos, logo tornamo-nos humanos”, descrevem pesquisadores ao se referirem ao hábito ancestral de reunir famílias e comunidades em torno do fogo e, posteriormente, do fogão – sinalizam Acary e Orsini.

Em entrevista exclusiva ao Estadão, o neurologista Dr. Marco Orsini explica que a Revolução Neolítica, conhecida como “Pedra Nova”, marcou a transição dos antigos coletores nômades para agricultores e criadores de animais sedentários. Segundo ele, esse processo representou o início de uma adaptação à facilidade de obtenção dos alimentos e à diminuição da necessidade da caça. “Esse fora o início do processo de adaptação à facilidade em coletar e ao alentecimento da necessidade de caçar. Emerge o termo sedentarismo e a imensa oferta de alimentos desnecessários à nossa sobrevivência”, afirma. Para o especialista, o ser humano perdeu parte de sua relação natural com os ciclos biológicos. “Não acordamos nem dormimos cedo, desrespeitamos o ciclo ascendente e o nadir do cortisol”, observa.

Embora reconheça que inúmeras síndromes e doenças metabólicas possam interferir no controle do peso corporal, Marco Orsini chama atenção para um fenômeno contemporâneo marcado pela busca acelerada por resultados. Segundo ele, a sociedade assiste atualmente à aplicação cada vez mais intensa das chamadas “canetas emagrecedoras”, acompanhada, em muitos casos, pelo consumo de suplementos proteicos de rápida absorção para manutenção ou ganho de massa muscular. A imagem da “caneta e colher”, segundo os especialistas, simboliza justamente essa tentativa de compensar rapidamente os efeitos provocados pelo emagrecimento medicamentoso.

O neurologista Dr. Acary SB Oliveira alerta para a ocorrência de sarcopenia decorrente dos processos de perda de peso rápida. “Para cada oito quilos a menos de gordura, estima-se uma perda proporcional de aproximadamente 30% de massa muscular. São números que nos preocupam, principalmente com o envelhecimento dessa população”, ressalta. Para ele, os músculos representam a verdadeira força motriz do corpo humano e são indispensáveis para o funcionamento biomecânico adequado do organismo. “É preocupante pensar que a população entre 30 e 50 anos, baseando-se em uma nutrição relacionada à caneta e colher, poderá envelhecer sem ter, quem sabe, autonomia para exercer atividades básicas”, adverte.

A médica endocrinologista Dra. Luiza Travalloni destaca que a chegada das chamadas “canetas emagrecedoras” representou uma revolução no tratamento da obesidade. Os medicamentos, segundo ela, possuem elevado potencial de perda de peso e abriram uma nova perspectiva para uma doença que, até pouco tempo atrás, encontrava na cirurgia bariátrica a principal alternativa para resultados mais expressivos. Quando utilizados de forma adequada e sob acompanhamento médico, podem proporcionar redução média de até 20% do peso inicial. As novas gerações de análogos triplos, como a retatrutida, apresentam resultados ainda mais expressivos, alcançando perda média de aproximadamente 30 quilos, o equivalente a 28,3% do peso corporal inicial.

Entretanto, a especialista ressalta que o principal problema reside no uso indiscriminado dessas medicações, muitas vezes voltado exclusivamente para fins estéticos e sem indicação clínica adequada. A crescente oferta de formulações manipuladas e produtos não aprovados amplia o acesso sem a devida fiscalização, aumentando os riscos associados ao tratamento. Entre os efeitos adversos mais comuns estão náuseas, vômitos e constipação intestinal, embora também existam eventos raros e potencialmente graves, como a pancreatite aguda.

Outro aspecto que merece atenção, segundo Luiza Travalloni, é que a perda de peso promovida pelos medicamentos não ocorre exclusivamente às custas da gordura corporal. Assim como acontece em dietas ou programas intensivos de atividade física, parte da redução envolve a massa magra, incluindo os músculos. Estudos demonstram que, durante o uso de análogos de GLP-1, como a semaglutida, a perda de massa livre de gordura pode representar cerca de 40% do peso total perdido. Já com os análogos duplos de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida, esse percentual gira em torno de 25%.

A endocrinologista explica que esses números podem ser ainda maiores quando não existe aporte adequado de proteínas e um programa estruturado de exercícios resistidos. Como as medicações reduzem a fome e diminuem a ingestão alimentar, muitos pacientes acabam consumindo menos proteínas do que necessitam para preservar a musculatura. Nesses casos, os suplementos proteicos, como o whey protein, podem ser utilizados não para neutralizar o efeito dos medicamentos, mas para corrigir déficits nutricionais decorrentes da própria restrição alimentar e contribuir para a manutenção da massa muscular.

Em pacientes com obesidade e indicação clínica apropriada, os benefícios costumam superar os riscos, com melhora significativa da composição corporal. Entretanto, os especialistas reforçam que o desafio está em evitar que o emagrecimento deixe de ser sinônimo de saúde. O excesso de peso pode dar lugar a um problema mais silencioso: uma população que envelhece com menos músculos, menos força, mais fragilidade e maior predisposição à sarcopenia. Em meio aos avanços da medicina, permanece a lembrança de que sentar-se à mesma mesa continua sendo um ato de convivência e pertencimento. Afinal, comida não é mercadoria. É patrimônio, é direito, é hábito e, acima de tudo, é vida.

Dra. Luiza Travalloni

Médica endocrinologista, pós-graduada em Nutrologia e mestre em Endocrinologia.

Dr. Acary SB Oliveira

Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Responsável pelo Setor de Investigação em Doenças Neuromusculares do Hospital São Paulo. Pós-doutor pela Columbia University, em Nova York (EUA).

Dr. Marco Orsini

Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Doutor e pós-doutor em Neurologia e Neurociências pela UFF e UFRJ. Coordenador do Serviço de Doenças Neuromusculares Raras do Hospital Niterói D’Or.

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