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Polineuropatia Amiloidótica Familiar: médicos destacam avanços no diagnóstico e tratamento da doença rara

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De Virchow à terapia genética, especialistas explicam a evolução do conhecimento sobre a PAF e reforçam a importância do diagnóstico precoce para evitar complicações graves.

A história da Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF) remonta ao século XIX, quando o médico e cientista alemão Rudolf Virchow observou a presença de depósitos teciduais que reagiam ao iodo adquirindo uma coloração semelhante ao amido vegetal. A partir dessa observação, ele utilizou o termo amiloide para descrever o fenômeno, em uma conclusão considerada elegante e inovadora para a época. Anos depois, a ciência demonstrou que esses depósitos eram, na verdade, formados por proteínas, principalmente pela transtirretina (TTR), uma proteína produzida predominantemente pelo fígado.

Quando a transtirretina sofre alterações em sua estrutura, processo conhecido como mau dobramento proteico, ela passa a formar agregados insolúveis chamados fibrilas amiloides. O acúmulo dessas substâncias em órgãos e tecidos pode desencadear a Amiloidose por Transtirretina (ATTR), uma doença progressiva e potencialmente incapacitante. Entre as manifestações mais conhecidas da ATTR está a Polineuropatia Amiloidótica Familiar, considerada uma enfermidade rara e de difícil diagnóstico.

Segundo o médico Marco Orsini, atual coordenador do Serviço de Doenças Raras do Hospital Niterói D’Or, a doença ganhou maior compreensão a partir das observações realizadas pelo neurologista português Corino de Andrade, que identificou pacientes na região de Póvoa de Varzim, em Portugal, apresentando sintomas como dores, formigamentos e fraqueza iniciados nos pés. Atualmente, sabe-se que a PAF pode se manifestar por meio de sinais neurológicos, autonômicos e cardíacos. Orsini destaca que os profissionais de saúde devem estar atentos a sintomas como dor, dormência, fraqueza muscular, perda de equilíbrio, tontura ao levantar, alterações intestinais, impotência sexual, distúrbios urinários, sudorese anormal, arritmias e insuficiência cardíaca, uma vez que a combinação desses sinais pode indicar a presença da doença.

O neurologista Marcos RG de Freitas explica que a PAF é causada, na maioria dos casos, por mutações no gene responsável pela produção da transtirretina. A transmissão ocorre geralmente de forma autossômica dominante, o que significa que cada filho de uma pessoa portadora da mutação possui 50% de chance de herdar a alteração genética. Para confirmar o diagnóstico, Freitas ressalta a importância da realização de testes genéticos específicos para o gene TTR, além de exames complementares como eletroneuromiografia, biópsias teciduais em situações selecionadas e investigação cardiológica sempre que houver suspeita de comprometimento do coração. O especialista reforça que o tempo é um fator decisivo nesses casos, já que a doença pode evoluir rapidamente e existem tratamentos capazes de modificar significativamente sua progressão.

Nos últimos anos, os avanços terapêuticos transformaram o cenário da Polineuropatia Amiloidótica Familiar. De acordo com o professor Acary Bulle Oliveira, novas abordagens têm possibilitado retardar a evolução da doença, preservar a qualidade de vida dos pacientes e reduzir o risco de complicações severas. O principal objetivo dos tratamentos modernos é interromper ou diminuir a produção da proteína anormal, permitindo que o organismo estabilize o quadro clínico e, em alguns casos, elimine gradualmente parte dos depósitos já existentes. Entre as opções disponíveis estão os estabilizadores da transtirretina, os silenciadores gênicos e os oligonucleotídeos antissenso, terapias que representam uma verdadeira revolução no manejo da enfermidade.

Apesar dos avanços científicos, Acary destaca que o tratamento não deve se limitar ao uso de medicamentos. O acompanhamento multidisciplinar continua sendo fundamental para garantir melhores resultados clínicos. Cardiologistas, gastroenterologistas, neurologistas e diversos outros profissionais da saúde desempenham papel essencial no cuidado integral desses pacientes, contribuindo para o controle dos sintomas e para a manutenção da qualidade de vida.

Marco Orsini também chama a atenção para a necessidade de diferenciar a Polineuropatia Amiloidótica Familiar de outras doenças neurológicas que podem apresentar sintomas semelhantes, como a Doença de Charcot-Marie-Tooth, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a Polineuropatia Inflamatória Desmielinizante Crônica (PIDC) e a Neuropatia Motora Multifocal. Segundo o especialista, a identificação correta da doença é decisiva para que o paciente tenha acesso ao tratamento adequado o mais cedo possível.

Para os especialistas, a rápida definição diagnóstica e a implementação precoce do tratamento representam a principal estratégia para modificar o curso da doença. Como conclui Marco Orsini, alcançar esse objetivo é o verdadeiro “Ovo de Colombo” idealizado por Virchow há mais de um século, unindo conhecimento científico, diagnóstico preciso e terapias inovadoras em benefício dos pacientes.

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